A Língua Portuguesa de Bilac

LÍNGUA PORTUGUESA (1)

Última flor do Lácio,(2) inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga(3) impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor(4), lira singela
Que tens o trom(5) e o silvo da procela,(6)
E o arrolo(7) da saudade e da ternura!(8)

Amo o teu viço agreste(9) e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!(10)
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna(11) ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!(12)

Comentários e glossário:

1. Escrito pelo poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918), publicado no livro Tarde (1919), este soneto tem versos decassílabos (10 sílabas métricas) e esquema de rimas: abab/baba/cdc/ede.
2. Região da península itálica onde se situa a cidade de Roma. Reporta-se à origem da língua portuguesa, derivada do latim, língua falada no Império Romano. O adjetivo últimas possui dois sentidos: a) o território de Portugal foi a mais longínqua localidade do continente europeu em que o latim dominou; b) das línguas neolatinas, a portuguesa é das menos conhecidas, perdendo apenas para o romeno. Embora tendo um número de falantes inferior apenas ao espanhol, a literatura em português não é tão conhecida no mundo como a em italiano, espanhol ou francês.
3. Parte impura de um material ou de uma jazida.
4. Som estridente ou forte.
5. Trovão.
6. Assovio da tempestade.
7. Acalanto, cantiga de ninar.
8. Através desses contrastes, são frisadas duas características que personalizam a língua portuguesa: a) a veia truculenta e enérgica; a) a veia afetuosa, doce e saudosa. Sublinha-se, assim, o potencial da poesia em português para a epopeia (tuba de alto clangor) e para a lírica amorosa (lira singela). Por isso, Luís de Camões (1525-1580) é mencionado, colocado como grande artífice de ambos os gêneros.
9. Vigor rústico.
10 Frisa-se o português brasileiro, mistura da língua desenvolvida no trópico (aroma das virgens matas) com o idioma de Portugal, país que expandiu sua cultura e influência por meio das grandes navegações (oceanos largos).
11. A idéia de língua materna também como a primeira voz que escutamos de nossa mãe.

(De Antologia da Poesia Parnasiana Brasileira. São Paulo: Lazuli Editora/Companhia Editora Nacional, 2007.)

Por Pedro Marques
31 jul. 2010

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