Artes do dito e da adivinha: Marco Catalão

Artes do dito e da adivinhaMarco Catalão (1974-) é o engenheiro que pega um procedimento e testa quase à fadiga. Fez de gato e sapato a canção (Antes do amanhecer, 2008). Pintou e bordou com a tradição literária (Cânone acidental, 2009). Lançou a disponibilidade do signo linguístico, no desenho de cada letra um mito feito claro depois de tecido (Sob a face neutra, 2012). Mas canção é forma mais velha que andar pra frente. Pastiche é ácido dos antigos e adoçante das vanguardas. Alfabeto, por conceito, é legado de grego. Com No cravo e na ferradura (inédito desde 2007, mesmo que premiado em 2010 pelo III Concurso Literatura Para Todos, do Ministério da Educação), o poeta, de fato, patenteia um modus faciendi.

Ditos e adivinhas, isolados, são clichês no celeiro do domínio público. A surpresa é que Catalão converte ambos em gêneros líricos, com regras definidas de conteúdo, forma e extensão. O poema-ditoso ergue entre 15 a 20 versos. Dispõe versos médios e longos, entre 8 e 12 sílabas métricas, permitindo raros excessos para mais ou menos. O poema-adivinha é uma trova – com versos variando 5, 6 ou 7 sílabas métricas – iniciada pela pergunta formular “o que é, o que é”. As rimas, aqui, consoantes ou toantes, ligam os versos ímpares. São 2 ditosos para cada adivinha, 20 para 10 no total. Essas novas disposições semi-fixas podem ser recriadas por outros poetas. Em dias de controle sofrível das formas já existentes (rondó, lundu, haicai etc.), criar novas é algo extraordinário.

Depressa ou devagar, vai-se ao mesmo lugar
Pro destino não existe atalho
O rio, ao mar; o homem, à sua morte

Destino é desatino
Sonhar com o futuro é atirar no escuro
Destino de minhoca é terra

Tal começo, tal fim
A morte vem do berço
De pequenino se divisa o destino
Boa sorte, boa morte

O melhor caminho é o que não seguimos
Destino bom é o dos outros
A gente na mão do destino é gato na mão de menino

Toda vida tem dois lados
O amanhã se pega pelos chifres
Enquanto há vida, há mudança
Águas futuras é que movem moinhos

Um poema-ditoso imanta o tema com bordões no meio-fio entre verso medido e livre. Feito átomo, tem por núcleo um assunto clássico (amor, saudade, futebol) circundado por uma órbita de frases proverbiais. Estas têm alterados os traços originais e unitários ao cederem à reconfiguração sintático-semântica, ao valor de conjunto.

E Catalão confronta os núcleos temáticos: vida/morte, coragem/covardia, verdade/mentira. Choques dessa ordem descobrem melhor a técnica de partir o verso em dois. Na horizontal, no primeiro hemistíquio, o verso prepara o motivo para, no segundo, encaminhá-lo. Esse pêndulo da tensão à distensão desenha o pensamento em ritmo binário. Se fosse música, tangeria a tônica, a dominante e omitiria a terça. Nem maior nem menor o tom.

Na vertical, se fosse dialética, para cada tese apenas anti-tese, nunca síntese. Aqui, o poeta racha o próprio poema ao meio. Pra que resolver? Ele até ensina a andar por dentro da casa, mas achamos a saída sozinhos. O sentido final se fecha em nós. É a mágica de achar pombo em lenço, sentido em som, para além do verbo escrito.

O que é? O que é?
Triste como uma estrela
Persistente como o mar
Terrível como um grilo
Impossível de matar

*

O que é? O que é?
Cabe na palma da mão
Mas não sob o travesseiro
Urgente como um grito
Frágil como o silêncio

Um poema-adivinha joga para o alto uma questão e o leitor que dê seus pulos. O poeta parte da lógica das palavras perfiladas nas linhas impressas, que de repente viram pentagrama, sugerindo acordes de imagens insuspeitas. “A lírica deixa de ser lúdica a partir do momento em que desaparece sua união com a música” (Huizinga, Johan. “A Função da forma poética”. In: Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1980.). Quando a poesia não se limita ao papel, o leitor, feito ouvinte, precisa intuir, assoviar o poema.

Ouço o poema-adivinha como exacerbação desse processo lírico. Catalão gosta de perguntar, mas quando abre a mão entrega vento. Assim, o que é, o que é que “cabe na palma da mão”? Na de Deus, homem? Na do poeta, resposta? Na minha aplauso. E na sua, leitor?

(Pessoa – Revista de Literatura Lusófona, 12/03/2015.)

Por Pedro Marques
31 mar. 2015

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