Carta Campinas I

Neste Natal, dê poetas

Descolar a barba, a neve de algodão

A decoração, a gente, a paisagem é uma coroa mimada
endividando os olhos do manobrista

O décimo terceiro assalaria a moça linda de fome,
riso falso como artigo suíço feito na China

A vida farfalha nos cartões, o poeta formiga falas,
promoções, o peixe colore a sala

Natal, luzes de mentirinha, noites de dezembro!

O bendito poeta contabiliza eventos, papos e seguidores
embriagado de eu

O coração gasta as coisas de presépio, credita
apenas a caridade que retorna

O poeta shopping vence o ano montado em renas,
e, se preterido, desdenha o riso de Noel

Ele berra o corpo em cada clique, chilique em cada afirmação

Mas o escorpião não fala nem quer virar presente,
estudo ou programação

Ele não lê tudo, ele estila fundo no pré-sal do canto-fóssil
silenciado pela massa das ondas

Ele desmonta o Senado, a Bolsa, as delícias, o hoje
que envelhece de tanto se querer contemporâneo

O peso escuro das águas de chumbo apaga
a silabada da cigarra roncadora de 1,99

Neste Natal, dê um poeta pet a quem você desgoste,
há belas capas, há muitos ciosos de adoção

Também esqueça o Natal com um poeta calado

Ele cantará em você mistérios nunca dantes comerciados
e, seguramente, mal resenhados

Só você e ele e o peru virando urubu no forno

 

(Carta Campinas, 18/12/2014.)

Por Pedro Marques
02 jan. 2015

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