Dois Saques

Corpo místico

José de Anchieta, carta Ao Padre Geral, de São Vicente, ao último de maio de 1560

Que direi das aranhas?
De sua multidão
ninguém dá conta,
de sua mordedura

Umas tantas ruivas,
outras quantas loiras,
muitas cor da terra,
umas bem aradas,
outras vêm pintadas,
todas cabeludas
As baitas de corpo,
carne, caranguejas,
só de ver venenam:
horríveis na vista,
mais lindas no beijo
Algumas mau cheiram:
frias por feitio,
tacadas em casa

Que direi dos tataranas?
De sua multidão
ninguém dá conta,
de sua queimadura

Semelham centopeias,
pelos de toda cor,
de compridos e pretos,
leves ou fornidos,
de cabeço vermelho
Libido-peçonhentos,
se tocam nalgum corpo
a dor que dura horas,
incham-se de tal modo
que são feios de ver
Perseguem tataranhas,
encarniçadamente,
carregam a seus cafofos
onde as comem, à farta

*

Engenho

Ambrósio Fernandes Brandão, “Diálogo Terceiro”, Diálogos das Grandezas do Brasil (1618)

Muitos moem feito boi, trapaças,
moem a palavra por certa invenção de rodas
de citação e colagem, para todo efeito
açúcar

Alguns moem feito água, represas,
moem a língua nos eixos de cor e cabeça ,
espremem o bagaço na caldeira de cobre
onde se alimpa, coze e apura
à força de fogo

Poucos moem feito motor, cilindradas,
moem a poesia em três rolos de aço
– engenho, agudeza, samba ’n roll –,
refundem a velha máquina,
o quê de bois e de águas,
o cristal cachaça

(Revista eLyra, 10/2017.)

Por Pedro Marques
02 out. 2015

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