Janelas

JanelasTodo poema pode ser janela. Chegar é fácil. Poemas se oferecem em páginas, cantam em fones, falam em telas. Abrir um livro lembra abrir uma janela. Através dela dorme o poema antes da nossa visita. A poesia como enquadramento de tamanhos diversos, de tantas distorções é a senha. Tem poema que se abre persiana embaralhando a cabeça. Tem verso olho-mágico tonteando a curiosidade. Tem tomada tão aberta quanto a varanda do trigésimo andar.

Se quero realidade fora da poesia, o poema vira fotografia que congelou um flash. Se desejo realidade de poema, a janela contorna um mundo com regras próprias só dele. Se sonho realidade de textos literários, o poema é a primeira das janelas destampando, referência da referência, a bagagem do leitor. Atrás de morro tem morro. Entender o poema num desses cortes, que se completam, pode ajudar o percurso da leitura.

Três poemas de épocas, lugares e autores diferentes. O sugestivo “Janelas”, do compositor brasileiro Rogerio Skylab (1958). É soneto livre, como quem não quer mostra as possibilidades de definir o foco. Da janela rural, que termina no horizonte de campos, à tela do computador, capaz de criar labirintos, os olhos perdendo e colhendo frutas. Quando a mão atravessa um poema, alinham-se janelas, leitor que chega e texto que está.

Saltando no tempo, os versos de “Contrariedades”, do português Cesário Verde (1855-1886), particulariza o foco da janela, a partir da qual o olhar caminha. O poeta trabalha sobre sua mesa, criando, como ele mesmo diz, os seus exatos alexandrinos. Mas de vez em quando ele tira os olhos do papel. Diante de si, há uma janela que vai dar na janela do prédio em frente. Ali sua vizinha também está trabalhando. Trabalhos manuais completamente diferentes. Enquanto ele escreve, ela passa roupas para fora. Será que ele deveria reclamar tanto da vida assim?

Saltando mais, “É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!”, do brasileiro Álvares de Azevedo (1831-1852), envia algo aos dois poemas já lidos. Feito em quadras de decassílabos, a voz se expressa postada num prédio acima da rua e dos telhados (“Dessas águas-furtadas onde eu moro”). Define-se bem a janela, mas o que surge por ela frustra a hipótese do eu lírico. Para além da promessa da janela, como para além do poema, vem a surpresa. O plano de voo do bisbilhoteiro/leitor se refaz na viagem/poema. E o inusitado tem graça, pois a expectativa de amor elevadíssimo arruína-se no ronco de uma lavadeira.

O que ver quer dizer quando olhamos por uma janela? É em torno dessa pergunta que gira a leitura em diálogo dos três poemas sugeridos.


Janelas

Houve um tempo que das janelas
se viam os campos, o mar ao longe.
Olhavam-se os telhados das casas.
Avistava-se o vizinho defronte.

Surgiram depois outras janelas.
A televisão ligada.
A janela de um ônibus correndo,
de um carro numa estrada erma.

Me lembro da janela do colégio
aberta e o professor desaparecendo…
Do Micro diante do meu filho.

Janelas de todos os feitios.
Como setas que nos enviam pra longe.
Para um mundo sem fim nem começo.

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
____Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
____E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
____Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
____Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
____Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
____Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
____Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
____Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
____Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
____Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
____Os meus alexandrinos…

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
____E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
____Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
____Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
____Todas as minhas obras…

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
____Que mundo! Coitadinha!

É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!

É ela! É ela! – Murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou – é ela!
Eu a vi – minha fada aérea e pura –
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! Que profundo sono!…
Tinha na mão o ferro do engomado…
Como roncava maviosa e pura!…
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso…
Palpitava-lhe o seio adormecido…
Fui beijá-la… Roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido…

Oh! de certo… (pensei) É doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela… Que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores…

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio…

É ela! É ela! – Repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja…
Abri cioso a página secreta…
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela – eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! É ela! Meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela…
É ela! É ela! – murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou – é ela!

[Fontes poemas]

Azevedo, Álvares de. “Lira dos Vinte Anos”. In: Poesias Completas. Edição crítica de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Organização de Iumna Maria Simon. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2002.
Skylab, Rogerio. Debaixo das rodas de um automóvel. São Paulo: Rocco, 2006.
Verde, Cesário. Poemas reunidos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

[Demais fontes]

Borges, Lô; Brant, Fernando. “Paisagem da janela”. In: Nascimento, Milton; Borges, Lô. Clube da Esquina. Rio de Janeiro: EMI Music Brasil, 1972.
Calcanhoto, Adriana. “Esquadros”. Senhas. Rio de Janeiro: CBS, 1992.
Hitchcock, Alfred. Janela indiscreta. EUA: Paramount Pictures, 1954.
Saudek, Jan. Cage. 1970. Online: http://www.saudek.com/en/jan/fotografie.html?r=1966-1970&typ=f&l=0&f=50
Tavares, Sérgio. “O mar”. Revista Pessoa. 12mar2014. Online: http://www.revistapessoa.com/2014/03/o-mar/

(Pessoa – Revista de Literatura Lusófona, 11/06/2015.)

Por Pedro Marques e Leonardo Gandolfi
22 jun. 2015

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