Lêdo Ivo: sorriso aos 80

Ledo Ivo

Um especial 2004 teve mesmo o poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-). Suas oito décadas de vida e seis de poesia receberam homenagens e publicações país e até exterior afora.

Num reconhecimento público e crítico desfrutado por poucos escritores em atividade, o poeta falou a todas as mídias. Era sempre paciente, mesmo quando o dono do microfone mal escondia a leiguice sobre sua longa obra poética, ficcional e ensaística. Contrariando a rabugice ou afetação tantas vezes incômoda em artistas longevos, aparecia afável, soltando cristais de sorriso do alto de seus oitenta.

Em 2004, o sexto número da revista Poesia para Todos (Rio de Janeiro: Ano V, No. 6, Setembro de 2004.) foi quase inteiro dedicado a Lêdo Ivo. Dezenas de páginas com reportagens, fotografias e entrevistas. Textos críticos assinados por gente como Ivan Junqueira e Gilberto Mendonça Teles. Uma pequena antologia poética e uma notícia biográfica. A bibliografia do autor e um notável levantamento do que se escreveu sobre sua obra dentro e fora do Brasil. Tais características fazem da edição uma excelente porta de entrada para estudiosos e interessados em geral.

Para os curiosos em aprofundar a trajetória desse que é, nas palavras de Ivan Junqueira, “um dos derradeiros e mais autênticos homens de letras da literatura brasileira”, recomenda-se Confissões de um poeta (Rio de Janeiro: Topbooks / Academia Brasileira de Letras, 2004.), memórias desembrulhadas em prosa solta, às vezes poética, às vezes bem fragmentária. Lançado originalmente em 1979, em 2004 o livro foi reeditado pela Editora Topbooks em conjunto com a Academia Brasileira de Letras, para a qual, aliás, Lêdo Ivo foi eleito em 1986.

A Topbooks, em parceria com a Braskem, também viabilizou aquela que acabou sendo a melhor das homenagens: o volume de Poesia completa (1940-2004) (Rio de Janeiro: Topbooks / Braskem, 2004.), que organiza sessenta anos de uma produção absolutamente multifacetada. São mais de 1.000 páginas cuja complexidade desafia a síntese crítica. As escolhas temáticas de Lêdo Ivo, das eruditas às mais triviais, suas saídas rítmicas, descortinando o conhecedor das possibilidades tanto do verso medido quanto do livre, desbotam o rótulo que o fixa exclusivamente na Geração de 45. A leitura menos ligeira do livro multiplica os lugares de Lêdo Ivo, ou seja, além de reagir com rigor ao modernismo de 22, sua poesia também é musicalidade, conversa com a tradição brasileira, crítica social, erotismo espetacular, bom-humor e cotidiano.

Em separado, a editora ainda lançou Plenilúnio (Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.), último livro da poesia completa do escritor. Dele, destaco dois poemas. Já na abertura, um que nomeia a brochura e ousa retomar nosso parnasianismo. Fato raro, num tempo que clona apenas Bandeira (1886-1968), Drummond (1902-1987), Cabral (1920-1999) e mais um ou outro gato. É que os manuais e professores têm preparado mal os adolescentes para a poesia, sobretudo a parnasiana. Adestram os alunos: a poesia parnasiana é gélida, é sobre vaso, não tem humanidade, isto é, de tão chata, nem precisa ser lida. Esquecem que apreciadores competentes de poesia e bons poetas costumam conhecer variados sistemas poéticos. Quando bem formadas, as meninas compreendem o “Vaso grego”, de Alberto de Oliveira (1857-1937), rastreando na Grécia de Anacreonte (VI a.C.) a tarefa sublime do poeta, a origem sagrada da lírica. Os meninos farejam o lirismo sedutor que emana da “Via-Láctea” (Poesias, 1888) arquitetada por Olavo Bilac (1865-1918).

Mas aqui o porto certo é Raimundo Correia (1859-1911). Especificamente os eneassílabos do seu antológico “Plenilúnio” (Poesias, 1898). O poema de Lêdo Ivo opera, com efeito, como terceiro vértice de um possível triângulo em nossa poesia. O primeiro seria, evidente, os versos de Correia, em que o fluxo violento de metaforização, as imagens prementes buscam em vão harmonizar elementos até contrastantes. Na viagem poética ao encontro da lua, o eu descobre a impossibilidade de significá-la, de com palavras chegar a sua essência. Pior para ele, que termina literalmente lunático, à maneira bem romântica. Obcecado pela lua, resta-lhe sonhar fundido a ela. Além do sentido comum de lua cheia, plenilúnio passa a significar aqui pleno de lua, cheio do desejo ideal que ela pode condensar: “um luar amplo me inunda, e eu ando / Em visionária luz a nadar, / Por toda a parte, louco arrastando / O largo manto do meu luar”.

No segundo vértice, reside Manuel Bandeira e seu “Satélite” (Estrela da Tarde, 1963) que, num movimento inverso, “desmetaforiza” e “desmitifica” a lua. “Despojada do velho segredo de melancolia”, “demissionária de atribuições românticas”, Bandeira propõe cantá-la em si, “tão-somente / Satélite”. O diálogo toma fôlego em versos como “astro dos loucos e dos enamorados”, retomada de “lua dos tristes e enamorados”, do poeta parnasiano. Fechando o triângulo, o “Plenilúnio” de Lêdo Ivo lança mão de redondilhas menores ininterruptas, sem estrofação. Remetem a Raimundo a escolha por metrificar e o surto de cenas que tentam significar a lua. Já o emprego da linguagem direta e coloquial recupera a fase modernista do bardo pernambucano.

Quando Lêdo entra na conversa de Bandeira com Correia traz ganhos para todos, principalmente para nós leitores. A partir de seus versos, os poemas anteriores alcançam novos sentidos, porque agora são ouvidos em bloco, como sinfonia em três movimentos. Embora haja resgates óbvios, como “Lua dos lunáticos / que sonham com a lua”, o poeta brota um galho autônomo na árvore dessa micro-tradição. Antes pouco previstos, percorre cenários cotidianos, urbanos, concretos, contemporâneos, em transportes sutis da imaginação: “Ó lua das ilhas / que migram à noite / para os outros mares. / Ó lua andarilha / dos caminhoneiros”. Correia reinventa a idealização convencional da lua. Bandeira nega tal simbolização, daí empregar o nome técnico do astro. Se Lêdo retomasse uma ou outra visão, ou ambas separadamente, o poema renderia pouco. Sua novidade é apresentar a solução para a tensão nascida do cotejo entre seus antecessores. Sua lua, a um só tempo, é “lua dos lunáticos” (Correia) e “lua sem São Jorge” (Bandeira).

No panorama da história poética brasileira, o maior mérito do poema é fazer gritar o óbvio: a fração menor da poesia modernista rompe completamente com a parnasiana. As obras de Machado de Assis (1839-1908), Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac modelam a educação dos poetas que fizeram germinar o modernismo. O que Lêdo Ivo realiza em versos – e também em alguns de seus ensaios – serve de motivação para a crítica, isto é, deve-se analisar a relação entre as duas gerações em suas contraposições, mas também em suas convergências. Em certo sentido, por exemplo, Manuel Bandeira despeita de Raimundo Correia em “Os Sapos” (Carnaval, 1919), mas o homenageia em “Satélite”.

Já os versos livres de “Minha Pátria” rechaçam o clichê divulgado por Fernando Pessoa ou, antes, pelo soneto “Língua Portuguesa” (Tarde, 1919), de Bilac: “Minha pátria não é a língua portuguesa / Nenhuma língua é a pátria. / Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci / e o vento que sopra em Maceió”. Inscreve-se, assim, numa tradição brasileira afeita a conjugar paisagens locais a vestígios da lembrança. A persona poética pinta o ambiente, por isso mesmo verossímil, com as tintas da experiência, puxada aos tempos quase imemoriais da infância. A Maceió que faz emergir é animada, como a da “Meninice” (Poemas, 1928) de Jorge de Lima (1895-1958). Insinua o encantamento da Recife, por exemplo, acordada pelo Manuel Bandeira de “Evocação do Recife” (Libertinagem, 1930), ou pelo Olegário Mariano (1889-1958) de “A Minha Velha Casa” (Canto da Minha Terra, 1927).

A cor local se acomoda à proposta memorialista. A terra natal, afastada dos grandes centros, surge recriada, revivida na distância do tempo e do espaço. Com que disposição o poeta pega pelo nosso braço, a fim de mostrar a Maceió que não se oferece em pacotes de viagem. Uma cidade que ele tentou refundar outras vezes em “Fronteira Seca” e “Minha Terra” (Finisterra, 1972), em “Asilo Santa Leopoldina” (A Noite Misteriosa, 1982). Só dois caminhos me levaram a esta Maceió com “cheiro de açúcar nos armazéns portuários”: estes poemas e as histórias da minha avó Maria Soledade que, hoje cega, ainda é capaz de guiar quem lhe ouça pelas praias memoráveis das Alagoas dos anos 30 e 40.

(Le Monde Diplomatique, 29/03/2008.)

Por Pedro Marques
31 jul. 2010

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