O Chão de Lenine

Lenine_ChaoFormidável o novo disco do Lenine, Chão (Casa 9, 2011). Apenas dez canções, poucos instrumentos, de preferência cordas, quatro músicos (Lenine, Bruno Giorgi, JR Tostoi e Yuri Pimentel) e letras de um lirismo movido a imagens, soluções inusitadas e auto-referenciais. O grafismo sereno do CD antecipa a experiência íntima que o compositor compartilha. A capa registra seu neto dormindo de bruços sobre a barriga do avô.

Em cada faixa, algum som do mundo, nessa ordem: passos na brita, pulsar de coração, melodia de canário, máquina de lavar, chio de chaleira, motosserra, cigarras, silêncio, metrônomo e máquina de escrever. Em tudo significados para além da sonoplastia, em tudo a leveza que exclui certo desconforto da música concreta. Na última faixa, esses sons se juntam numa espécie de sinfonia dos ruídos. O pano sonoro, assim, vai se tecendo, sustenta o violão sempre técnico, a voz mais macia que de costume.

Com Olho de Peixe (Casa 9, 1993), dividido com Marcos Suzano, Chão compõe, até agora, a nata da produção de Lenine. Curiosamente, ambos cultivam a parcimônia de arranjos e letras à beira do transe poético. Lenine e seus parceiros Lula Queiroga, Ivan Santos, Carlos Rennó e Lucky Luciano não brincam. Destaque para Se não for amor, eu cegue – a paixão como afecção – e Amor é pra quem ama – o afeto que cura. Contraditório como o amor que canta, o disco tira do chão. Só não se arrepia quem tiver água fria nas veias.

Por Pedro Marques
13 abr. 2012

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