Poética da Hospitalidade

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Antonio Carlos Secchin é pela poesia. Por onde anda semeia leitores para ela. Professor e conferencista, acalenta o gênero numa voz serenada. Crítico, mergulha fundo na poesia brasileira, tendo descrito um dos peixes-grandes deste oceano: João Cabral de Melo Neto.

Na Academia Brasileira de Letras, imprimiu essa dedicação na Revista Brasileira, na Coleção Austregésilo de Athayde e na Série Essencial. Quarenta anos depois da estreia em livro (A Ilha, 1971), seus sete volumes de versos são, às vezes, raros de achar. Na quantidade, autor quase bissexto; na fatura, poeta valoroso.

Comentam-se as raízes da tradição alastrando-se através de sua poesia: 1) paródia de clássicos; 2) emprego de procedimentos definidores das principais correntes brasileiras (do chamado barroco à geração de 1945); 3) reciclagem de materiais literários. Para mim, sobretudo na primeira seção homônima de Todos os ventos (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002), Secchin não procede à conversa trivial entre textos. Embora haja vários exemplos em sua lavra, ele não é usuário padrão da intertextualidade, salva-vidas de uns tantos poetas fracos da imaginação e inseguros da técnica.

Secchin tem uma poética da hospitalidade. Jeanne Marie Gagnebin (“A memória dos mortais: notas para uma definição de cultura a partir de uma leitura da Odisseia”, in Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006) discute a hospitalidade (philoxeinoi: amizade, respeito ao estrangeiro), de um lado, como um dos caracteres definidores da condição humana narrada na epopeia homérica; de outro, enquanto intercâmbio de bens materiais e simbólicos entre viajor e acolhedor. É aquilo que Ulisses espera receber onde quer que aporte em seu retorno de Tróia à Ítaca.

Desconsiderar a lei da hospitalidade “significa recusar a aliança, portanto, declarar guerra”. Praticá-la, ao contrário, revela “capacidade de entrar em comunicação com o outro e de proceder a uma troca”. Eis a base da política e da diplomacia. Na terra de Polifemo, Odisseu e seus companheiros recebem hostilidade no lugar de guarida e provisões para seguirem viagem. A violência do ciclope – que desrespeita Zeus, deus da hospitalidade, ao devorar alguns nautas – custa-lhe o único olho que tem. Já na corte dos Feácios, o afamado ardiloso retribui a boa acolhida do rei Alcino com a narração de suas aventuras.

Trazendo essa noção para a poética, encontro dois comportamentos padrões em relação à tradição. O trato com o passado, esse estrangeiro que não pára de bater nas praias de quem escreve, há de ser mais ou menos hospitaleiro. No pólo da hostilidade, posta-se o poeta polifemo, devorador da herança literária que o precede. Comedor de carne crua, consome obras pelo simples desejo de afirmação. O diálogo, se há, visa o silêncio, a morte ou a perda da identidade do outro. No controle da situação, porque em seus domínios, o poeta se arroga, dorme em armas, deslembrando que seu dia de estrangeiro chegará. Ulisses tenta argumentar com Polifemo, o qual apenas responde: “ok, comerei você por último”.

No pólo da aliança está a poética que vive a permutar com a tradição. Aqui, a referência estrangeira, ao desembarcar, tanto informa a obra hospitaleira, quanto ganha novas opções de interpretação. O maior presente que o poeta alcino pode render aos hóspedes é ampliar sua rede de referências. É o que faz Secchin quando abriga em seu palácio os sobreviventes das águas bravas da tradição. O simpósio (beber junto) está armado: o viajor traz o passado novo, o acolhedor o recompensa levando a memória adiante fundida a seu presente, deixando o outro ecoar através de seu edifício poético. Um exemplo:

Cisne

À memória de Cruz e Souza
A Iaponan Soares

Vagueia, ondula, incontrolado e belo,
um cisne insone em solitário canto.
Caminha à margem com a plumagem negra,
em meio a um bando de pombas atônitas.

Encontra um outro, de alvacentas plumas,
um ser sagrado no monte Parnaso,
e enquanto o branco vai vencendo a bruma
ele naufraga, bêbado de espaço.

Em vão indaga, o olhar emparedado
na vertigem da luz que o sol encerra:
“Se em torno tudo é treva, tudo é nada,

como sonhar azul em outra esfera?”
Negro cisne sangrando em frente a um poço.
Do alto, um Deus cruel cospe em seu rosto.

Soneto decassilábico, Secchin acolhe Cruz e Souza (1861-1898) em alguns aspectos que, ora reeditam, ora repaginam o imaginário acerca do poeta. Do quarteto inicial emerge o epíteto Cisne Negro, menção à tez (“plumagem negra”) e à raridade que representava, à sua época, o cantor “Emparedado”. É que ao investir numa produção estranha ao parnaso-romantismo hegemônico, o poeta esteve “à margem” do “bando de pombas”, referências aos célebres versos de Raymundo Correia. Sua poesia “naufraga” porque o contexto literário brasileiro rezava outra regra, que não a do inefável que, desvendado, antes sugere que conclui.

Estivesse Cruz e Souza em cenário diferente sua fama seria outra? Sugerida no segundo quarteto, a resposta não está distante de Roger Bastide (“Quatro estudos sobre Cruz e Sousa”, in Coutinho, Afrânio. Coleção Fortuna – Crítica Cruz e Souza. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1979). O poeta brasileiro vem a ser o negativo de Stéphane Mallarmé (1842-1898), cisne branco que desfilou em França. Também do século XIX, sua poética da ausência não foi enjeitada, pelo contrário, assegurou-lhe lugar no Parnaso. Mallarmé obteve em vida (luz, branco, positivo) o que Cruz e Souza mal conquistou depois da morte (treva, negro, negativo): consagração.

Secchin presenteia o estrangeiro emparelhando-o àquele que se converteria num dos eixos da poesia moderna ocidental. Até há intertexto, mas é menos óbvio notar Mallarmé ecoando por Cruz e Souza através de sutis referências como o soneto do cisne (“Le vierge, le vivace et le bel aujourd’hui”), ou a participação em Le Parnasse Contemporain (1866). Só um poeta alcino consegue esse tipo de troca, cujo objetivo primeiro é a comunicação, a afirmação de todas as fontes, do passado feito presente. E assim a poética da hospitalidade – que Secchin também coloca em curso em “É Ele!”, “A um poeta” ou “Trio” – garante a ordem do cosmos, a civilidade, tocando sua nota na harmonia da tradição.

Por Pedro Marques
17 fev. 2011

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