Profissão poeta

Olegario_CelebridadeÚltimas Cigarras deu a Olegário Mariano a fama definitiva e o epíteto de “poeta das cigarras”. De todas suas coletâneas, não houve mais editada, com seis edições: 1915, primeira; 1916, segunda; 1920, terceira; 1924, quarta (única a receber a rubrica aumentada); 1931, quinta; 1950, sexta e definitiva. (Ver Toda uma vida de poesia – vols. I e II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957.) Quase quatro décadas de atividade sobre o texto, mesmo com a boa acolhida crítica desde a estreia. Como sugere o título e alguns poemas (“Último Canto”; “A Cigarra Morta”; “A Voz que Calou”; “A Última Cigarra”), o volume parece uma despedida do poeta amador, espécie de elegia aos iludidos da arte. É como uma transposição para o plano literário do inquérito que João do Rio organizou, entre homens de letras do período, anos antes de Olegário Mariano celebrizar-se. Refiro-me ao questionamento sobre o jornalismo ser ou não fator positivo para a arte literária. Realizadas entre 1904 e 1905 e publicadas em 1907 (Momento literário. Organização de Rosa Gens. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional – Dep. Nacional do Livro, 1994.), as reflexões registram a encruzilhada porque passava o escritor brasileiro.

Para Cristiane Costa, duas lógicas divergiam: “a do artista desinteressado pelo aspecto econômico, que buscava apenas lucros simbólicos por sua obra, como a glória, e a do artista que deseja viver de seu talento, e que, portanto, precisa ter lucros reais com seu trabalho” (“O momento literário 1900”, in Pena de Aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904-2004, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 26). Olegário carrega essa tensão entre a cigarra-artista e a formiga-trabalhadora. Desenrolava uma carreira profissional à la formiga, mas na figuração poética ressentindo-se do poeta inspirado, agraciado pelo dom. “A dicotomia arte e dinheiro faria o campo literário (da arte pela arte) se constituir, no Brasil, em oposição ao jornalismo (da pena de aluguel), embora a ele vinculado. E o modelo ideal (aqui quase irreal) de escritor em tempo integral, em distinção ao de trabalhador braçal (ou melhor, industrial) do jornalismo” (Cristiane Costa, idem, p. 33). Mariano mostra que ao se identificar com a cigarra que canta por cantar, o poeta corre o risco de morrer abraçado ao seu tronco, isto é, ao seu ideal de arte ao largo do mundo mercantil.

Último Canto

(…)
Lá está junto de um tronco, hirta e gelada.
As folhas vão caindo ao lado dela.
A asa de rendas ainda brilha iriada,
Folha mais do que as outras, amarela.
Tem na garganta, inanimada e fria,
A última nota estrangulada
Da canção que cantou quando morria…
(…)

Alguns depoimentos colhidos por João do Rio atravessam Últimas Cigarras. Para Olavo Bilac, dispondo de pouquíssimos leitores cujo poder de compra de livros era, para piorar, baixo, o escritor com sede de fama só teria a opção do jornalismo, tábua de salvação do poeta “que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia”. Em troca de versos, notícias, depoimentos, reportagens e toda sorte de textos, a grande impressa entrega ao artista a comida que a formiga negou à cigarra. Bilac, no entanto, vaza certo romantismo ao aconselhar os jovens a não segui-lo como profissional bem sucedido no negócio da literatura. Para “não prostituir o (…) talento”, eles deveriam ter a coragem “de morrer de fome” (“Bilac”, in Momento literário, 1994, pp. 18-19). Já para Silva Ramos, o jornal conseguiu mudar o final da fábula de Esopo e La Fontaine, colocando o literato “ao abrigo das primeiras necessidades, tornado, para sempre, impossível a reprodução do quadro lendário: o poeta morrendo de fome” (“Silva Ramos”, in Momento literário, 1994, p. 164).

A reflexão mais consciente do irreversível rumo mercadológico da arte literária ficaria por conta de João do Rio. Para ele, “a literatura é uma profissão que carece do reclamo e que tem como único crítico o afrancesado Sucesso”. Publicidade, “notoriedade lucrativa”, “valor no mercado” são pré-requisitos para que um autor vença, convertendo-se, por assim dizer, num branding. “A sua marca é boa, é vendável; e como acontece a outros produtos, os próprios críticos, forçados pela corrente, fazem-lhe o reclamo com o instinto (…) que tem toda a gente de aclamar os que a multidão aclama”. A literatura como trabalho e negócio extingue de vez o romântico, o diletante, o sentimental, “as noites passadas em claro e essa coisa abjeta que os imbecis divinizam chamada boêmia, isto é, a falta de dinheiro, o saque eventual das algibeiras alheias e a gargalhada de troça aos outros com a camisa por lavar e o estômago vazio” (“Depois”, in Momento literário, 1994, pp. 292-294).

Olegário Mariano fixou-se como protótipo de poeta pactuado com seu meio. Segundo Maria Eugênia Celso, “no auge de sua popularidade (…) não havia festa no Rio em que não comparecesse, recitando ou recitado” (“Olegário Mariano”, in Jornal do Brasil. 2-12-1958). Na figuração poética, Olegário divulga o traço amador de composição, mas na prática publicitária resolve-se pela linha de montagem quase industrial. Estudar sua presença, nesse sentido, é sondar uma etapa importante do processo de profissionalização do literato brasileiro. O poeta utiliza o embate cigarra/formiga, por um lado, como mais um substrato poético, e, por outro, para forjar sua imagem pública, ora afirmando, ora afastando a crença de que genialidade natural chamaria reconhecimento público natural.

Identificado à cigarra, a atividade do poeta personificaria uma missão “conservadora e senhorial”, aquela presunção “de que o verdadeiro talento há de ser espontâneo, de nascença, como a verdadeira nobreza”, que Sérgio Buarque notava na intelectualidade do período, mas não apenas. Já o poeta formiguinha, ao representar o trabalho regular e o estudo reiterativo, era refratado pela elite cultural, na medida em que remeteria “aos ofícios vis que degradam o homem” (“Novos tempos”, in Raízes do Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 164). A solução de Olegário a esse binarismo é controlar o talento, o dote artístico demasiado irrefreável, fazendo-o entrar em ressonância com o público da época e, a um só tempo, ganhar acabamento, apresentação e exploração de mercado. É como se a cigarra se regenerasse em suas mãos, virando uma cigarra operária.

Dispostos ao networking cultural, antenados aos proventos de prêmios e editais, nossos poetas ainda aprendem a se ajustar às expectativas do público. Pré-requisitos da profissionalização que Olegário assumiu, tais características, evidente, esvaziam-se quando não lastreadas pela competência poética mínima. No limite, a produção literária sempre entrega mais poetas dessa espécie que propriamente ruptores. Há olegários nas academias de letras das pequenas cidades, nas editoras medrosas. E há ainda aqueles que, às vezes se nos iludindo criadores, rearranjam lugares-comuns de modelos um dia revoltosos, mas hoje solidificados, servindo ao público, como se fosse novidade, o que se tornou habitual: Bandeira, Andrades, Cabral, Campos, dentre outros. Enfim, por traz de muita poesia divulgada ainda agora, ecoa a lição de Olegário Mariano: que a cigarra aprenda a cobrar ingresso, mais fácil se for com repertório já conhecido.

(De Olegário Mariano – Série Essencial. Rio de Janeiro/São Paulo: Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado, 2012.)

Por Pedro Marques
05 jan. 2015

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