Tarde Demais para a Poesia

tarde

Tarde (São Paulo: Companhia das Letras, 2007) é a quinta estocada poética de Paulo Henriques Britto, também prosador e, sobretudo, tradutor. É dele a postura entre irônica e circunspecta, a formalidade que, de repente, vaza um riso pela beira da boca.

O poeta articula cada fato rítmico numa retidão versificatória movida a rimas e paralelismos, mas sem se algemar à métrica. Numa mão o soneto clássico, na outra a tesoura que molda o soneteto. Opera as engrenagens métricas a partir de um menu razoável de temas, da teoria literária (“OP. CIT., PP. 164-65”) ao calço de cortiça a escorar o mundo (“Uma Doença – II”). Glauco Mattoso chegou a criar uma nova espécie de soneto, que batizou de Paulidrômico, tributo a Britto.

Houve era de predizer o que haveria de ser. Época para repassar o feito. Tempo de proclamar o agora sobre as consciências. Cada comunidade de ouvintes e leitores curtiu sua poesia que, – não raro instrumentalizando politica, religião ou filosofia –, tinha lá seu canto garantido. Isso num certo ocidente organizado demais para nós.

Aqui, arrumamos de andar no meio fio entre a cultura oral e letrada. A poesia culta, no sentido de cultivo racional oposto à voluntária flor do mato, vive entre nós sitiada, como o português de Goa e Macau (esta região, aliás, deu nome ao livro anterior do poeta, em 2004). A quem e a quantos o poeta fala? Ouvido, sua voz é relevante? Nem futuro, passado ou presente, a poesia pena no limbo. Ainda que a vaidade de alguns poetas não aceite, é tarde demais para a poesia. Onipresente mesmo, a parte exceções, só verso decantado em rádio, clipe, festinha mediática.

O poeta e o seu mundo. Paulo Henriques sente que neste tempo a poesia serve para pouco ou nada. Quando a pedra despenca do morro, ela morre do estouro, acorda por último ou é o depoimento que o jornalista nem anota. A série de sete poemas Balanços expõe essa inutilidade, essa inocuidade da poesia. O poema VI, especificamente, parece sugerir o quanto o papel social ou cidadão do poeta vai se reduzindo, até sobrar eu lírico embriagado de si, ególatra.

VI

É isto que me cabe.
Dentro disto é necessário caber
até que tudo acabe.

Mas há nisso uma espécie de prazer,
uma volúpia esguia,
impalpável, difícil de dizer,

feito uma melodia
que se escutou e depois se esqueceu,
porém retorna um dia,

inconfundível: sim, este sou eu,
e eis aqui o palácio
que construí, e agora é todo meu:

um só andar, um passo
de frente e um de fundo. É um bom espaço.

Hexassílabos e decassílabos intercalando-se, estrofação à terza rima, ritmo que ajuda a ironizar um eu feliz da vida com a parte exígua que lhe cabe, menor ainda que a cova reservada por João Cabral aos severinos do Auto de Natal Pernambucano. Num volume também chamado Tarde (1919, publicação póstuma),  Olavo Bilac aconselha, no soneto “A um poeta”, o artista a esconder “o emprego do esforço”. A lida com o verso dá-se em reclusão, só depois de pronta a obra deve ser revelada ao público, já ”sem lembrar os andaimes do edifício”.

Paulo Henriques Britto, entretanto, suspeita do canal de acesso ao leitor. Seu eu lírico não vê razão para deixar a reclusão. Não há para quem entregar a obra, o poeta não triunfará, como Bilac, nos braços da plateia. Para Britto, esta é a única condição à vista, o poeta resta sozinho no palácio que constrói. E esse pequeno enorme feito está de bom tamanho.

O poeta e o mundo dos outros. Mesmo fadada à clausura do eu produtor e do eu lírico, a poesia uma vez impressa periga chegar ao leitor, responsável maior pelo milagre da manutenção da obra no tempo. Crítico ou amador, o leitor vale ouro, departamentos de marketing declaram guerras por ele. Britto não conta com o abraço fácil do leitor, mesmo espalhando um ou outro alpiste pop ou cotidiano, mesmo editado por um dos business mais arrojados do setor literário tupiniquim. Observe-se o sexto poema da série Crepuscular.

6.

No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.

Antoine Compagnon, lendo Wolfgang Iser, diz que o objeto literário não é “nem o texto objetivo nem a experiência subjetiva, mas o esquema virtual (uma espécie de programa ou de partitura) feito de lacunas, de buracos e de indeterminações. Em outros termos, o texto instrui e o leitor constrói” (“O Leitor”, in O Demônio da Teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.). Ora, nossa poesia anda em crise, temos mais gente tentando instruir do que construir. Inflação de versos, deflação de quem os leia, ame, deteste com porquês.

Esses decassílabos – muitos heroicos e alguns estranhos – querem passar a bola para o leitor. Há neles alguma esperança de contato, ainda que precário. O poeta lança no espaço a mensagem como numa sonda quem sabe um dia deslacrada por um extraterrestre. Sim, aquele que vai à livraria comprar um livro de versos deve morar em Plutão. Ler e comentar com alguém o volume pra lá de simpático, já é coisa de outras galáxias. E Paulo Henriques Britto não é deste mundo.

Por Pedro Marques
19 mar. 2012

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