Transitivos – Um Cluster Coletivo

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É sorte falar deste maço de escritores, pensar na natureza dos volumes literários. Com o perdão da alegoria musical, está desgastado o jeito melódico de amalgamar a unidade, mesmo que em movimentos, capítulos, seções.

Venho do cluster poético. Não a coletânea de versos, outro lance, massa poética. Aqui, salas de leitura ornadas por Adalgisa Campos, textos gravitando uma ideia. Chega a sua mão um cluster coletivo bem-vindo da Internet. Cada cacho com sua aposta e a quebradeira de gêneros comendo solta.

O pêndulo de Clara Lobo parte do poema em prosa (“paes mendonça”), bate na canção praieira de Dorival Caymmi (“Sumidouro”), indo e vindo num ritmo de pau-de-chuva. Essa escrita correnteza de riacho, no entanto, dá corpo a uma espécie de eu traumático. As vozes que aqui se levantam tendem a gritar alguma ferida aberta ou já cicatrizada. O texto surge como tomada de consciência de um acontecimento significativo, caminho para a cura que chega numa gargalhada (“outra”) ou numa lágrima (“história de pescador”).

A microscópio ou a olho nu, Adriane Bertini solta os bichos, plantas e pedras que resistem à cidade. Vai naquelas miudezas em que Ana (“Amor”, de Clarice Lispector) se refugia na cozinha ou no parque. No plano aberto, os humanos que fazem algum sentido são mutantes. Trombamos com o homem-tucano e a menina-peixe, por exemplo. Em ritmo fluente, os poemas fundem catalogação naturalista, fábula e ecologia cotidiana. Pra mim, os ancestrais dessa biologia surreal são Da Costa e Silva (Zodíaco, 1917) e Hermes Fontes (Microcosmo – Elegia dos Insetos e das Flores, 1919).

Destaco quatro gomos da ponkan de Marcio Yonamini. Primeiro: poemas assentados num paralelismo que, assimétrico, joga mas recebe outro bumerangue (“Cochichando” ou “véspera”). Segundo: o poeta transporta a arte do origami (tsurus) para a poesia, dobrando a língua com a leveza da escultura de papel. Terceiro: mini-contos (“a hora mágica” ou “artifícios”) que, sem o ritmo e a subjetividade do poema em prosa, enquadram nacos de narrativa. Quarto: a meditação post it (“literatura” ou “marcela”) que grudamos numa pausa da pressa.

O feixe de Maria Eugênia de Menezes está bem amarrado. Entregue à flânerie do centro de São Paulo ou bebendo tudo com olhos de apartamento, esses instantâneos encenam um eu neurótico (“arpejo”) que de tanto explicar se irrita até com a alegria alheia (“da seriedade cinzenta e segunda-feira ao sol”). A crônica jornalística de um Rubem Braga tinha extensão parametrizada, já esta é movida à vontade, pulando do palco social (“teatro sem cor”) para o registro miúdo (“basta um dia”). Há, ainda, um quê de diário (“presente”) que antes condensa a vida na escrita que entrega a linguagem ao vento das sensações.

Se você é emotivo, be careful, aí vem Kevin Kraus. Agressivo no sarcasmo e no lirismo, ele prepara um “direto no meio da cara”. Poesia que não anestesia o dodói, mas brota da própria luta com medos, culpas e traumas. A sintaxe límpida, o ritmo decantado ao pé do ouvido animam a catarse de sentimentos soterrados. Monstros são cutucados: o avô niilista, o anão demitido do circo burguês, o peido no elevador, a paranóia. A tragédia individual (“homework”)e os frames aquarelados (“natal na roça”) são traços que, a meu ver, diferenciam o poeta de seu mestre: Charles Bukowski.

Humberto Pio fotografa em sépia, arte de frear o tempo, poeira de antiquário (“re-forma”). O fato passa e o cheiro é enfrascado no texto (“evanescente”). O tempo ganha do homem, quando a gente aprende o remédio a ferida já é outra (“prazo de validade”). Sobra a ansiedade das horas escorrendo pelas mãos (“jogo”). Por isso, o cotidiano surge em locações de ontem ou decadentes (“reserva para seis”). Vejo essa escrita quase sem canto – à exceção de “gafieira” ou “rum(in)o”– rubricando Marçal Aquino: a trama dos contos dele correndo brutal e essas indicações mobiliárias, gestuais, ambientais, enfim.

Para Julio Cortázar, o conto era “irmão misterioso da poesia”. Juliana Amaral irriga alguns canais desse parentesco. Seus textos fazem da linguagem ciclone de paixões, despede as vigas comuns ao conto (“Ele agora partiria simples e reto”). Até as ilustrações são mais abstratas neste cluster. Quem liga para unidade de ação, desenho de personagem, de espaço? Como certos experimentos de Vilma Arêas, nossa atenção se amarra à ventania das sensações às vezes lirismo puro. Assim, a “carta leal” parece a outra margem da “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes. A paisagem íntima, claro, só ganha uma rival externa na série “carnavalesca”.

As personas de Marcio Dal Rio aprendem como lembrando. Poemas em prosa melodiosa afiando dramas. “Ainda não sabia como”: num mundo que faz da pessoa número, cumpra seus papéis, sobretudo o de pagar impostos. “Confesso que jamais deixarei”: o nome de Iolanda Helena martelando a toada do amor perdido. “Felisberta era uma mulher de força”: quem pode com essa viuvez reincidente? “Lilica e seus sapatos floridos”: a malícia na menina nasce antes, ecoando Capitu e Bentinho meninos. E os versos livres? Têm repetições irônicas, infantis, de quem ri de si (“Renata não me olhou”). Têm palavra que chama palavra pelo som e brota quase uma canção (“Eu tenho amado o silêncio”).

Maria Carolina Costa Coutinho às vezes dispara a enumeração, você diante de um carrossel de idéias (“apagar”). Ela estrutura o verso livre pela recorrência de palavras chaves, anáforas e estruturas frasais (“De sal”). Há reflexões íntimas descortinadas em movimento, como se a poeta descobrisse o destino do tema na hora da escrita (“Sono” e “Uma”). A sombra dos poetas rebentados na década de 1970 (Cacaso e Chacal, por exemplo) extrapola a citação direta (“lendo alguns poetas dos anos 70…”). Vem de um apetite sexual a beira da patologia (“Fome”), do desapego a bulas ideológicas e vanguardistas, do proposital inacabado.

Difícil forjar a unidade da gigantesca produção contemporânea numa foto dos seletos que “representam a literatura brasileira dos dias que correm”. Quem chapa os milhões de cacos desse momento deve gostar de pose: “as características centrais da produção atual é a sujeição ao não lugar da abobrinha de Marte, sendo Di Verde o expoente da geração”. Não! Quem gosta de centro, cânone e gênios de época é camelô, pastor e intelectual de barzinho.

Transitivos é título apropriado, é o verbo que necessita de complemento. Fora da comunidade nada vale a palavra. Contra o “cada um por si”, os caras escrevem em grupo, se afirmando sujeitos e dançando para a platéia. Se fosse uma revista, o papo editorial era reto, mas aqui sons e imagens ricocheteiam até você achar uma coerência, amigo. Não se avexe, a leitura é sua.

(Prefácio a Transitivos [2011], organizado por Adriane Bertini e Hugo Malavolta.)

Por Pedro Marques
18 jul. 2011

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