Um mimo milimétrico: a Rebentação de Daniel Dias

Daniel Dias_Rebentacao

Daniel Dias acaba de lançar seu primeiro registro fonográfico, um mimo para os ouvidos. No disco Rebentação (Tratore, 2016), o violão acústico é senhor, costurando com nylon, dedos e calma a atenção do auditório. Daniel fere o instrumento entre o abafar e o clarear do som. Sua voz, quando raia, emoldura uma música milimétricamente sentida. Suas frases, instrumentais e vocais, trazem sempre a nitidez de um verso que flui da boca ao coração, isto é, elas falam com a gente. Elaboração aqui, de fato, não é sinônimo de congelamento dos sentidos.

Cada faixa tece uma tela harmônica que, para além do que se escuta, opera como sinfonia virtual, a partir do que sonhamos naipes de sopros aqui, seções de cordas ali. São convites para projeções musicais, fazendo de cada ouvinte um parceiro cósmico. Os ritmos não temem conversarem entre si, mesmo quando predomina o samba (“Rosa morena”), a balada (“My romance”), a bossa-nova (“Eu sei que vou te amar”) ou o jazz (“Stella by starlight”). Um consegue tirar o outro para dançar, como em “Manhã de carnaval”, em que bossa e jazz valsam à vontade pelo salão.

As afinidades musicais também animam as cores do trabalho. Toninho Horta escreve sua guitarra inconfundível nas faixas “No carnaval”, “Eu sei que vou te amar” e “Blue in green”, além dos vocais nesta última. Walmir Gil imposta seu flugelhorn ouro-fosco em “É luxo só” e “Blue in green”. O encarte traz textos de Toninho e do luminoso Antonio Nanah Dias. Um disco que de longe, numa audição ligeira, talvez soe deveras contido, embalado em silêncio. Mas de perto, é um raio solar desenhando uma incrível paisagem em tom pastel. Uma vibração para morar no seu acervo para sempre, caro ouvinte. Daniel, enfim, mostra que é um intérprete maiúsculo de violão e voz. Aguardamos, agora, um próximo rebento com composições próprias.

Por Pedro Marques
03 nov. 2016

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